Desejo ou Vontade
- Rafael R

- 23 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 30 de dez. de 2025
A vontade supõe um "eu" que escolhe, decide e orienta suas ações a partir de objetivos claros. O desejo, ao contrário, nasce justamente onde esse domínio falha. Ele não obedece à consciência, nem se organiza segundo a lógica do planejamento ou da intenção. O desejo emerge como efeito da falta, daquilo que nunca se completa no sujeito. Na psicanálise, desejar não é querer algo determinado. É estar atravessado por uma pergunta que não se responde por inteiro.
O desejo como efeito da linguagem
Para Lacan, o desejo se constitui a partir da entrada do sujeito na linguagem. Ao sermos nomeados, falados e inscritos no campo simbólico, algo de uma satisfação plena se perde. Essa perda é estrutural e irrecuperável. O desejo surge exatamente aí: como marca do que falta, do que não pode ser dito por completo, do que insiste para além do sentido.
Por isso o desejo nunca se satisfaz totalmente. Quando um objeto é alcançado, ele não encerra o movimento desejante. O desejo se desloca, se reinscreve, reaparece em outra cena. Não porque o sujeito seja insatisfeito, mas porque o desejo não visa a um objeto final.
Desejar é sustentar uma falta, não preenchê-la.
Se o desejo se organiza em torno da falta, o gozo aponta para outra dimensão: a do excesso. Desde Sigmund Freud, a psicanálise reconhece que o sujeito não busca apenas prazer, equilíbrio ou bem-estar. Há algo que leva à repetição mesmo quando ela produz sofrimento.
Lacan cita esse excesso de satisfação como gozo. Diferente do prazer, o gozo não visa reduzir a tensão, mas muitas vezes intensificá-la. Ele se manifesta no sintoma, nas escolhas que se repetem, nos impasses que retornam apesar do desejo consciente de mudança.
O gozo não pede autorização ao eu. Ele acontece.
Um ponto central da clínica é o desencontro entre desejo e gozo. O sujeito pode desejar outra vida, outras relações, outros modos de estar no mundo, e ainda assim permanecer preso a formas de gozar que o mantêm no mesmo lugar. Não por falta de vontade, mas porque o gozo responde a uma lógica que não é a da escolha racional.
Esse conflito gera angústia, sensação de fracasso e culpa. A psicanálise, porém, não lê esse impasse como falha moral ou falta de esforço, mas como efeito da estrutura do sujeito.
A psicanálise não tem como objetivo fortalecer a vontade nem eliminar o gozo. Sua aposta é ética: criar um espaço onde o sujeito possa se responsabilizar por sua posição frente ao desejo e ao modo como goza.
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